quinta-feira, 2 de junho de 2011

Rápida reflexão : A arte da tolerância

A incessante preocupação com as tarefas do nosso dia-a-dia, vem tomando lugar do que, a princípio seria mais digno e importante. O respeito ao próximo. Cada vez mais indiferentes às outras pessoas, nos vemos numa cega obsessão àquilo que interessa apenas a nós mesmos, "e os demais que se danem". Infrações no trânsito, agressões físicas e verbais, ocorrem com uma frequência absurda, porque aquilo que não nos atinge diretamente, aquilo que é importante para o outro, pode não ser prioridade nossa. E para conseguirmos o que almejamos, passamos por cima de tudo e de todos.

Uma senhora entra em um ônibus qualquer, depois de um dia exausto de trabalho. Ela só quer ir pra casa, ver a família, fazer suas tarefas domésticas e descansar. Ao pedir o trocador para passar pela roleta para pegar seu dinheiro, ele num gesto indiferente nega. Nesse exato momento o motorista, visivelmente com pressa de terminar logo sua jornada de trabalho, dá uma freada brusca e a senhora cai no chão por não ter conseguido se apoiar a tempo. Mais um pouco ela passava pela escada e caía no meio da rua, batendo sua cabeça e causado uma situação ainda mais grave.

Uma cena não comum de descaso do ser-humano. Olhamos para o nosso umbigo com a certeza de que a importância das nossas necessidades é prioridade para todos. E esquecemos de praticar um gesto de gentileza, aquelas lições básicas que aprendemos no pré-primário. Ou mesmo aqueles que não frequentaram a escola, no seu dia-a-dia já presenciaram um gesto de educação, tolerância e respeito.




quarta-feira, 25 de maio de 2011

Por J.R Guzzo

Vi essa matéria na Revista VEJA esses dias e  achei excepcional a forma com o colunista descreveu a nova classe brasileira, a classe AAA. 



                                           

 

                                        Mais um portento

J. R. GUZZO




REVISTA VEJA

No meio de todo o ruído levantado nesses últimos tempos para saudar a subida da classe "C", ou o aparecimento da nova "classe média", a verdade é que pouco se ouve falar de um fenômeno ainda mais interessante - o surgimento de algo que se poderia descrever como a classe "AAA". Ela não é mencionada na propaganda oficial; ao contrário, sua existência é um constrangimento nas áreas ligadas ao poder público. Também não tem despertado a menção dos analistas políticos, mais preocupados, ultimamente, em descobrir se os emergentes são lulistas, dilmistas ou neoconservadores. Essa nova classe, enfim, parece não ter atraído até agora o interesse dos departamentos de marketing de empresas em busca de consumidores de bolso cheio - ou, se já atraiu, ninguém está disposto a ficar falando disso. Numa pátria-mãe menos distraída do que o Brasil de hoje, porém, a classe AAA provavelmente despenaria um pouco mais de curiosidade. Ela é formada por gente que, de uma forma ou de outra, prospera recebendo dinheiro do governo, inclusive por meios lícitos - e aí estamos falando de cada vez mais gente, cada vez mais prosperidade e cada vez mais dinheiro, a ponto, talvez, de colocar este país diante de uma nova espécie de portento econômico. 

Não se trata, no caso, de qualquer dinheiro público. Nada de povão por aqui - não entram na classe AAA, por exemplo, os brasileiros que vivem do Bolsa Família e de outras obras de caridade do governo. Também estão fora funcionários públicos de posição e remuneração modestas ou que, se ocupam cargos mais altos e têm salários melhores, trabalham de verdade, como qualquer cidadão comum. A população que habita esse mundo é formada por todos os que têm a ventura, hoje em dia, de vender algo ao governo, especialmente quando vendem caro e, melhor ainda, quando conseguem vender sem entregar. A seu lado, subindo de vida dentro do mesmo pesqueiro, estão os que não vendem mas recebem - o caso clássico é o dos controladores de ONGs que, através dos seus amigos dentro do governo, e dos amigos dos amigos, recebem doações do Erário para realizar tarefas vagas, isentas de prestação de contas ou simplesmente inexistentes. Estão nessa classe emergente, também, os milhares de companheiros presenteados com cargos na máquina pública e na constelação de altos empregos que se espalha em torno dela - conselhos de empresas estatais, autarquias, diretorias de fundos de pensão, institutos disso, secretarias daquilo. Há todo um meio de campo, com fronteiras mal definidas, cada vez maior e cada vez mais caro, de intermediários entre o poder público e as empresas privadas que fazem negócios com ele. Completam o bloco, enfim, os beneficiários da corrupção pura e simples - os que sempre trabalharam no ramo e uma aguerrida turma de novos talentos. É gente que gasta depressa, consome muito e, frequentemente, paga em dinheiro vivo - da mesma forma, aliás, como recebe.

Nunca houve tanto dinheiro em circulação nesse mercado - cerca de 1 trilhão de dólares em 2011, 1 belo e redondo trilhão, levando-se em conta que o governo, o grande cliente, representa cerca de 40% do PIB nacional, que deve fechar o ano com um total aproximado de 2,5 trilhões de dólares. O cofre está aberto para os mais variados tipos de transação. Podem-se vender estádios de futebol, aeroportos e trens-bala - ou trens não-bala, que, por sua vez, tanto podem ir na direção norte-sul como na leste-oeste. Também há, nesse mar de oportunidades, a chance de negociar instalações para uma Olimpíada inteira, serviços terceirizados de mão de obra e campanhas de publicidade informando ao público que o Brasil é de todos. É possível receber dinheiro do Erário em troca de usinas hidrelétricas, organização de festas juninas e recitais de poesia. Há excelentes perspectivas, na área judicial, para arrancar indenizações do Tesouro Nacional - e por ai segue a procissão. Ela passeia pelo país inteiro, mas é Brasília, obviamente, a sua cidade predileta - nada mais natural que a renda per capita na capital esteja a caminho dos 30000 dólares anuais, cerca de três vezes a média nacional. É o progresso.



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Acabamos de ficar sabendo, com base no último censo do IBGE, que há exatamente 16267197 miseráveis no Brasil de hoje; são os cidadãos com renda mensal de até 70 reais. É uma boa notícia e, ao mesmo tempo, um mistério. A boa notícia é que eles são apenas 8,5% da população total. O mistério é saber como alguém consegue ganhar 71 reais por mês, por exemplo, e não viver na miséria.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

A Dama do Vermelho


 
Ao som da sirene e com o gloss no porta luvas, assim começa mais um dia de uma motorista um tanto quanto diferente.

Bárbara Batista, Bruno Menezes, Cica Alfer, Jaqueline de Paula

Minha meta é o corpo de bombeiros”, afirma Thaís Andrade, 25, com um sorriso no rosto mesmo após mais um dia de maratona, a única representante do sexo feminino condutora do SAMU (Sistema de atendimento Municipal de Urgência) em BH e região metropolitana.
Ex-moradora de Brasília e atualmente morando em Ouro Preto, a dama do vermelho relata que sofreu um acidente doméstico quando ainda era criança e seu irmão ficou parcialmente queimado. Os dois foram socorridos por um vizinho bombeiro, fato que despertou sua vontade de ser integrante dos bombeiros, hoje este é o maior sonho.
A socorrista conta como é difícil lidar com os tabus impostos pela sociedade no dia a dia, “Por muitas vezes os motoristas não me dão passagem com a ambulância, por notarem que sou mulher, o que dificulta ainda mais o meu trabalho”.
A vaidade
Meu carro é vermelho, não uso espelho para me pentear”, Thaís que dirige a ambulância vermelha do SAMU se mostra muito vaidosa. Com vários brincos, anéis e unhas sempre bem feitas, Andrade diz que cantadas são normais em sua rotina e que o preconceito também é constante, mas que ela lida com muito jogo de cintura e prefere não levar essas brincadeiras a sério.
A carreira
O start na carreira não foi fácil, Thaís teve que fazer diversos cursos como: Primeiros socorros, direção defensiva e cursos do próprio SAMU. Contrariando a opinião de quem achava que ela não fosse conseguir se manter na profissão, a motorista que sempre gostou de carros, está no cargo há um ano. Com uma pitada de bom humor, e muita força de vontade, ela conta: “o terreno irregular e as ruas estreitas de Ouro Preto dificultam nossa acessibilidade às ocorrências”.
A rotina de um profissional desta área é pesada, são muitos atendimentos por dia em diferentes locais da cidade. Em Ouro Preto existe um fator que complicada ainda mais, a distância da cidade ao hospital referência em urgência e emergência é de 100km. O Hospital João XXIII recebe vítimas de todos os tipos de acidentes em Belo Horizonte e região.


A jornada de trabalho de um condutor socorrista é de 12 por 36 horas, podendo chegar ao limite máximo de 36 horas trabalhadas sem interrupção. Dores no corpo são normais, segundo Thaís, o esforço para carregar macas é muito grande e que não é raro quebrar o dedo indicador durante os atendimentos. Para aliviar o estresse no fim do dia, a receita é “tomar um bom banho e depois ir para o colo dos pais”, diz.
A vida sem o macacão
Se não estou no horário de trabalho e alguém me procura para pedir socorro, chego a desmaiar quando vejo sangue”, a dama do vermelho brinca que sua coragem encerra junto com o expediente.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O esporte, uma terapia para cadeirantes

esporte


Por Bárbara Batista e Jaqueline de Paula
A ONG Tênis Para Todos, leva a prática do esporte para pessoas de todas as classes, situações financeiras ou que tenham algum tipo de deficiência física



A capital mineira, Belo Horizonte, é considerada referência nacional em tênis sobre rodas. Fundada em janeiro de 2004, através de um grupo amigos, a ONG Tênis Para Todos, tem como objetivo promover a integração social de pessoas sem oportunidades e cadeirantes. Hoje, a ONG conta com atletas altamente qualificados e reconhecidos internacionalmente. Os torneios são credenciados pela International Tennis Federation com aval da Confederação Brasileira de Tênis e integram o circuito mundial da modalidade.
Minas é espelho na prática de esportes adaptados para cadeirantes, com iniciativas como a do jornalista Gerson Carlos de Souza que diz: “Descobri uma quadra de tênis pública que ninguém utilizava e junto a quatro amigos tivemos a ideia de montar equipes para competição. Antes mesmo de dar segmento ao projeto, um dos meus amigos questionou porque não aproveitar aquele espaço para montar uma equipe para cadeirantes, e assim começou a ONG Tênis Para Todos.” Em sete anos de muito esforço para conseguir patrocínios, o projeto obteve vários títulos em reconhecimento do trabalho desenvolvido: Utilidade Pública Municipal em dezembro de 2006 e Utilidade Pública Estadual em agosto de 2007. Ainda em 2007, foi contemplada com o segundo lugar do Prêmio Eu Acredito – Cidadãos do Mundo, organizado pelo caderno Eu Acredito do jornal Hoje em Dia.  O Tênis Para Todos engloba projetos como o Tênis Sobre Rodas, Tênis nas Vilas, nos Parques, na Escola, para Universitários e SuperAção.
O Brasil conta hoje com várias competições na modalidade do tênis. BH Open, Minas Open, Brasil Open e Winner Brasil são todos torneios criados pela ONG. Dois atletas se destacam no cenário mundial, Daniel Rodrigues iniciou no esporte há quatro anos e é o 50º no ranking mundial e 66º em duplas, já participou de torneios na Inglaterra e na Turquia.  Rafael Medeiros é o outro destaque, aluno do projeto desde os 14 anos já jogou na Suécia e na Colômbia, é o 3º no ranking brasileiro, 78º no ranking mundial e 66º em duplas. O Tênis Sobre Rodas conta com grande número de alunos, “Esta convivência é necessária para o desenvolvimento não só físico mas principalmente psíquico dos deficientes, é uma forma de terapia”, disse Marcos Nunes, cadeirante e aluno do projeto. 




No dia 20 de março de 2011, ás 10 horas, no bairro Santa Teresa, Belo Horizonte, acontecerá o 15º torneio internacional organizado pela ONG Tenis Para Todos e a abertura da 6ª edição do Minas Open.






No dia 18 de feveiro,  durante a visita a amostra da 29ª Bienal de São Paulo no Palácio das Artes, tive oportunidade de conhecer os trabalhos de artistas conceituados nacional e internacionalmente, e pude compreender um pouco do que  eles queriam expressar.
Começando pelo  primeiro andar,  uma exposição de quadros de uma artista francesa, sobre a interpretação dos sonhos de duas crianças, me chamou a atenção pela realidade que a imagem transmitia. Em seguida, a foto da família Obrera ( 1968 ), pareceu um pouco comum pra uma Bienal, mas ao ler sobre o que se tratava,  achei interessante o fato de o pai receber o dobro do salário expondo sua família em exposições como uma imagem real do cotidiano.
Um conjunto de quadros  do artista Jonathas de Andrade,  muito parecido com um jogo de quebra-cabeças, chamou atenção  pelo fato de fazer uma associação entre palavras e imagem,  o que acaba por instigar o público a fazer interpretações,  e também  abre possibilidades de imaginar outros significados para as respectivas fotos.
O vídeo de Joachim Koester , chamado Tarantism, traduzido para Tarantela,  é no mínimo curioso, ao exibir a dança de uma mulher em movimentos aleatórios, como se ela estivesse em estado de delírio.  Hoje a tarantela representa uma dança para casais, mas na Grécia Antiga era uma forma de tratamento para pessoas que eram picadas por tarantulas. Segundo Koester, essa picada causava sintomas de náuseas, delírio e excitação, e a única forma de cura, era através da dança.
O artista plástico Gil Vicente,  surpreendeu pela forma polêmica de expressar  na Bienal, uma série de imagens em que ele próprio aparece  apontando uma arma para ex e atuais líderes de vários países, como  por exemplo, George Bush, Lula, Papa Bento XVI e  Mahmoud Ahmadinejad.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Entrevista Ping Pong

Por Jaqueline de Paula

Em um bate-papo descontraído, a simpática Agente de Bordo da linha 3503 e estudante de Técnico em Segurança do Trabalho, Adriana de Oliveira, 37 anos, contou um pouco das dificuldades da sua profissão e como é seu dia-a-dia.

P: Na última segunda-feira (dia 14) iniciou-se uma greve dos funcionários do transporte público, reivindicando o aumento do salário. Você acha que essa forma de manifestação funciona? Porquê?
R:  Na verdade, a gente fica muito mal informado de como vão ser as manifestações, somos “pegos de surpresa”. Na maioria das vezes só temos acesso as notícias que vem do jornal. O sindicato não informa a gente, tem um delegado, mas nem sempre tem como encontrar com ele, os passageiros perguntam mas a gente não sabe informar.
P: Na sua opinião, qual a maior dificuldade desta profissão?
Olha, vou te falar, a gente tem que ter muita responsabilidade, é muito serviço, são muitas viagens, fica cansativo. Não dá tempo de tomar café, nem ir ao banheiro, eles falam que temos direito a vinte minutos de horário de almoço, mas quase nunca dá tempo.

P: Falta segurança para vocês que trabalham diretamente com a população?
R: Com certeza, ali você  fica exposta. Tenho que mexer com dinheiro, e é muito perigoso. Até tem o cofre, mas nem sempre dá pra guardar tudo nele, porque caso aconteça um assalto, o ladrão fica com raiva e vai querer descontar  na gente. As pessoas não reconhecem nosso trabalho, ao invés de facilitarem, por exemplo, pagando a passagem com notas menores, elas querem que você troque 50 reais. Não tem como eu obrigar ninguém a levar dinheiro trocado, e aí elas partem pra ignorância.

P: Qual o incidente mais curioso que já aconteceu durante seu expediente?
São vários, costumo falar que daria pra fazer um filme. Passageiros que ficam presos na roleta. Já vi muitas brigas dentro do ônibus, com motorista, entre eles mesmo (passageiros). O pessoal grita falando  que está armado. Em dia de jogo, os torcedores jogam pedra, jogam cadeira no ônibus, é uma zona.
P: Você acha que está surtindo efeito a iniciativa da Prefeitura de Belo Horizonte, em espalhar cartazes nos ônibus, com orientações de como as pessoas devem agir no ambiente coletivo (ex:  respeitar vagas para deficientes, grávidas e pessoas idosas)?
R:  Acredito que ajude um pouco, mas nem sempre as pessoas ligam. Tem muita falta de respeito, muitas vezes temos que pedir para as pessoas darem licença dos bancos reservados pra quem tem prioridade. Já fui  ameaçada, e isso acaba com o nosso dia, temos que ter auto-controle.